REVIEW | From Dusk Till Dawn 1x08: La Conquista [SPOILERS]

Em 1519, os espanhóis chegavam onde hoje é o México, habitado na época pelos astecas. Hernan Cortez, comandante do exército do rei, derrotou os nativos com apenas cerca de quatrocentos homens, alguns poucos cavalos, 32 escopetas e quatro canhões (mas contando com a ajuda de milhares de indígenas). O ouro roubado dos astecas revolucionaria toda a economia européia, proporcionando a acumulação inicial de capital para a explosão capitalista que se seguiria. É a esse momento da história espanhola/mexicana que “La Conquista”, título do oitavo episódio de Um Drink No Inferno, bem como toda a mitologia desenvolvida durante ele, faz suas referências.

Carlos (Wilmer Valderrama) tem sido, desde o primeiro episódio, um dos principais impulsores da série no caminho de desenvolver sua própria mitologia. Em “La Conquista” não é diferente. Tanto é que começamos o episódio logo com um flashback seu, e a ele retornamos em diversas oportunidades no decorrer da história, que faz uma boa alternância entre o presente e o passado.

Graças a esses flashbacks, podemos entender um pouco mais das motivações e objetivos de Carlos. Elas se resumem, basicamente, a agradar Santanico, vez que, aparentemente, o sentimento que ele nutre por ela chega a superar o amor e atingir a adoração, como disse a própria semideusa. Não sei bem a exata cronologia de tudo isso, mas fica claro aqui que os dois se conhecem há muito tempo (leia-se cerca de quinhentos anos), e que o primeiro encontro dos dois se deu logo após uma maldição (a de ter uma insaciável sede por sangue) ter atingido a moça.

Quem apareceu pouco (e não fez muita falta) foi o ranger Freddie. Sua presença em tela serviu apenas pra justificar todo o discurso que sustentou os flashbacks acima mencionados, bem algumas cenas de ação, do ótimo embate travado entre ele e Carlos. Aparentemente, o “rinche” faz parte de uma linhagem de pessoas que parece ser imune às mordidas dos vampiros-cobra. Ok até aqui.

Richie também é outro que teve pouco tempo em cena. Entretanto, sua importância na trama se mostra cada vez maior e necessária para o desenvolvimento da série. Achei acertada a maneira como Santanico tenta convencê-lo a se tornar um vampiro. A moça passa uma fragilidade que toca e convence até mesmo nós, que estamos assistindo. Ela não quer apenas que ele seja amaldiçoado. Ela quer que ele queira ser amaldiçoado com a forma de vampiro. Nós sabemos que as suas reais intenções são apenas as de ser salva e liberta, e que Richie já está ciente dessa sua motivação egoísta. De qualquer forma, o roteiro soube muito bem criar uma situação e um contexto apropriado, que faz com que qualquer decisão que ele tome seja plausível. (Aliás, ótimo cliffhanger. Parabéns, From Dusk Till Dawn, por me deixar querendo mais um episódio pra agora).

Há de se notar, que, a esse ponto, a série já se distanciou completamente do filme e está andando apenas com seus próprios pés. Além de toda a mitologia, que notoriamente já conta com personagens inéditos, os outros núcleos (que antes pareciam tomar o mesmo rumo que o do filme) tomaram aqui um caminho bem diferente daquele tomado no filme. Scott "Bruce Lee" Fuller, por exemplo, se tornou um vampiro e passou a colaborar com os “inimigos”.

Apesar de toda sua inutilidade, foi Scott – ou o fato de ele não estar presente – que moveu o segundo núcleo da série. Kate e Jacob Fuller, junto ao Seth e ao Sex Machine, não pretendem deixar o garoto pra trás, e justificam todos os perigos que passam com a necessidade de encontrá-lo. Eles, inclusive, contam com a ajuda material de um rapaz (interpretado por um ator bem canastrão) que, no final, acaba conseguindo a paz que precisava.

A personagem Kate também merece grande destaque. Seu amadurecimento tem sido muito bem trabalhado pela série. Sua vivência lhe deu coragem, mas, ao mesmo tempo, sua ingenuidade e fé ainda podem lhe atrapalhar. Essa dualidade entre a força e a fragilidade, que a garota demonstra, foi muito bem traduzida no contraste que há, por exemplo, entra a cena em que ela dá um chute no saco do Sex Machine (sim, isso aconteceu) com toda a sequência de seu rapto pelos “Chanaans”. Talvez seja filosofar demais para uma série tão despretensiosa, mas vejo isso como uma metáfora: Sex Machine representa tudo o que é mundano (o sexo, os homens), enquanto os vampiros Chanaans representam o mundo sobrenatural/espiritual. Perante o primeiro, ela se mostra uma moça muito forte e confiante, negando veementemente as tentações. Já perante o segundo, ela se mostra apenas como uma garotinha frágil e confusa, com pouca noção do poder da fé e da espiritualidade.

Tudo dito, a conclusão a que se chega mais uma vez é a de que From Dusk Till Dawn soube muito bem se distanciar do filme de uma forma suave, feita pra que os fãs mais fervorosos não se espantassem. “La Tortura”, que pra mim foi o melhor episódio até agora, soube muito bem equilibrar todo o material que tem em mãos. Sua mitologia está cada vez mais delineada e consolidada, e as individualidades dos personagens cada vez mais claras e instigantes. Além disso, a série ainda continua com bastante sangue, pancadaria, ação e até as sempre agradáveis explosões. Aguardo ansiosamente pelo próximo!

PS 1: O “Sex Machine” explica a origem de seu nome com uma menção desvirtuada da expressão “Deus Ex Machina”. Essa expressão reduz a termos um recurso narrativo que consiste, basicamente na aparição de um novo elemento em uma determinada trama, que soluciona ou explica, de maneira abrupta, todas as pontas soltas da história. Talvez tenha sido só uma referência, mas quem sabe não é uma metalinguagem antecipada, indicando a maneira com que a primeira temporada de Um Drink no Inferno irá terminar?

PS 2: Tomara que não haja mais hiato na série, visto que estamos na reta final da temporada (faltam só dois episódios). Pra quem depende do Netflix já é uma tortura ter que esperar uma semana a mais (em relação à transmissão original nos EUA)… imagine com hiato, que tristeza não será.
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